(PT)
Se és da velha guarda, deves lembrar-te do Instagram de 2011 ou 2012. Era um lugar incrivelmente imperfeito, mas genuíno. As pessoas publicavam fotos quadradas, com filtros manhosos e sem grandes pretensões. Havia uma comunidade. Tu publicavas uma fotografia daquela rua deserta que descobriste ao fim da tarde, um colega fotógrafo comentava, tu respondias, e criava-se uma ligação. Era, de facto, uma rede social. Havia espaço para a contemplação.
Hoje? O Instagram transformou-se num shopping barulhento, impessoal e desenhado exclusivamente para uma coisa: encher os bolsos à Meta. A arte foi engolida pelo negócio.
O Mito do Alcance e a Ditadura dos Bots
Se és fotógrafo e publicas o teu trabalho no Instagram nos dias que correm, parabéns pela paciência. O alcance orgânico das publicações de fotografia é praticamente nulo. Tu passas horas a planear uma saída fotográfica, editas o ficheiro RAW com todo o cuidado no Lightroom, escolhes a composição perfeita e, quando publicas, o algoritmo decide mostrar o teu trabalho a uns míseros 5% dos teus seguidores. Porquê? Porque a Meta quer que tu pagues para que as pessoas que escolheram seguir-te vejam o que fazes. É extorsão digital, pura e simples.
E quem é que interage contigo quando publicas? Esquece a noção de comunidade. O teu feed foi invadido por uma horda de bots. Mal colocas uma hashtag ou publicas algo, recebes instantaneamente comentários automáticos: "Wow, send this to @CreativeGraphy!" ou "Amazing pic, DM us!". Não há ninguém do outro lado. É uma conversa de fantasmas, um deserto de interações reais mascarado por números falsos.
A Praga dos Reels sem Qualidade e o Excesso de Clichés
A fotografia estática, aquela que nos faz parar e pensar, foi assassinada pelo formato vertical de consumo rápido. Para teres um vislumbre de relevância hoje, o Instagram exige que te tornes um palhaço do algoritmo: tens de gravar Reels. E sejamos honestos, a esmagadora maioria desses vídeos curtos não tem qualidade nenhuma. São criados apenas para pescar seguidores e visualizações fáceis, usando a música que está na moda e cortes frenéticos que destroem qualquer capacidade de atenção.
A isto junta-se a praga dos "travel content creators". Há um excesso gritante de criadores de conteúdo de viagem que transformaram o mundo num cenário repetitivo. É o mesmo vídeo da pessoa a correr de costas em direção a um miradouro, a mesma transição copiada mil vezes, a mesma perspetiva saturada dos mesmos locais turísticos de sempre. Onde está a identidade? Onde está o olhar único? Desapareceu. Tudo parece saído de uma linha de montagem industrial. Tornou-se uma rede profundamente pirosa e homogénea.
O Lado Impessoal de uma Máquina de Fazer Dinheiro
O Instagram atual perdeu a humanidade. Tornou-se uma plataforma fria e egoísta, onde as pessoas já não entram para ver o que os amigos ou os fotógrafos que admiram estão a fazer; entram para consumir, de forma anestesiada, aquilo que o algoritmo decide despejar no feed (geralmente publicidade disfarçada e conteúdos sugeridos que nunca pediram para ver).
Para Mark Zuckerberg, a tua fotografia — por muito pensada, artística e introvertida que seja — é apenas um pedaço de dados para prender o utilizador no ecrã durante mais três segundos. A Meta não quer saber da tua arte; quer saber do tempo de antena que pode vender aos anunciantes.
E Agora?
Como fotógrafo que valoriza o silêncio, a geometria das ruas e a essência do momento, recuso-me a dançar a música deles. O Instagram transformou-se num ambiente hostil para a verdadeira fotografia. Se o fecho da plataforma acontecesse amanhã, a única coisa que perderíamos seriam números de vaidade.
O verdadeiro trabalho, a verdadeira ligação com a imagem, continua a acontecer aqui, no site, no papel, nas exposições e no olhar atento que dedicamos ao mundo quando guardamos o telemóvel no bolso. O Instagram está moribundo, e eu prefiro continuar vivo, a fotografar para mim e para quem realmente sabe parar para ver.
(ENG)
If you belong to the old school, you probably remember Instagram back in 2011 or 2012. It was an incredibly imperfect place, but it was genuine. People posted square photos with sketchy filters and zero pretension. There was a community. You would post a picture of that deserted street you discovered at dusk, a fellow photographer would leave a comment, you’d reply, and a real connection was born. It was, truly, a social network. There was room for contemplation.
Today? Instagram has turned into a loud, impersonal digital mall, engineered exclusively for one thing: lining Meta's pockets. Art has been swallowed whole by commerce.
The Myth of Reach and the Dictatorship of Bots
If you are a photographer publishing your work on Instagram these days, congratulations on your patience. The organic reach for photography posts is practically non-existent. You spend hours planning a photo walk, carefully edit the RAW file in Lightroom, nail the perfect composition, and when you finally post it, the algorithm decides to show your work to a measly 5% of your followers. Why? Because Meta wants you to pay so that the people who chose to follow you can actually see what you do. It’s digital extortion, plain and simple.
And who interacts with you when you post? Forget any sense of community. Your feed has been invaded by a horde of bots. The second you drop a hashtag or publish a photo, you instantly get automated spam: "Wow, send this to @CreativeGraphy!" or "Amazing pic, DM us!". There is nobody on the other side. It’s a conversation of ghosts, a wasteland of real interaction masked by vanity metrics.
The Plague of Low-Quality Reels and Cliché Overload
Static photography—the kind that actually makes us pause and think—has been murdered by the quick-consumption vertical format. To catch even a glimpse of relevance today, Instagram demands that you become a clown for the algorithm: you have to shoot Reels. And let’s be honest, the overwhelming majority of these short videos have absolutely zero quality. They are created solely to fish for easy followers and views, using whatever song is trending and frantic jump-cuts that destroy any human attention span.
To make matters worse, we are facing an absolute plague of "travel content creators". There is a staggering excess of creators who have turned the world into a repetitive backdrop. It’s the same video of someone running backward toward a viewpoint, the same transition copied a thousand times, the same saturated perspective of the exact same tourist traps. Where is the identity? Where is the unique perspective? It’s gone. Everything looks like it came off an industrial assembly line. It has become a deeply cheesy and homogeneous network.
The Impersonal Side of a Money-Making Machine
Today's Instagram has lost its humanity. It has become a cold, selfish platform where people no longer log in to see what their friends or the photographers they admire are up to; they log in to numbly consume whatever the algorithm decides to dump into their feed—usually disguised ads and suggested content they never asked to see in the first place.
To Mark Zuckerberg, your photography—no matter how thoughtful, artistic, and introverted it might be—is nothing more than a piece of data meant to glue a user to the screen for an extra three seconds. Meta doesn’t care about your art; they care about the airtime they can sell to advertisers.
What Now?
As a photographer who values silence, street geometry, and the essence of the moment, I refuse to dance to their tune. Instagram has become a hostile environment for true photography. If the platform went dark tomorrow, the only thing we would lose would be vanity numbers.
The real work, the true connection with the image, keeps happening right here—on websites, on paper, in exhibitions, and in the sharp look we give the world when we slip our phones back into our pockets. Instagram is dying, and I prefer to stay alive, shooting for myself and for those who actually know how to stop and look.